PLANO DOS EUA PARA A VENEZUELA COMBINA CONTROLE POLÍTICO, PETRÓLEO E TRANSIÇÃO

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Declarações de Trump e intenção de administrar a Venezuela

Donald Trump durante evento com republicanos, em janeiro de 2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu governo deverá “administrar” a Venezuela e explorar suas reservas de petróleo por “vários anos”. As declarações foram feitas em entrevista ao The New York Times, publicada na quinta-feira (8), na qual o republicano indicou que Washington pretende supervisionar o governo venezuelano por tempo indeterminado, como parte de um processo de transição política e econômica.

Trump disse que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez — vice de Nicolás Maduro antes de sua deposição —, tem colaborado com os interesses americanos. Segundo ele, o atual governo interino “está nos dando tudo o que consideramos necessário por enquanto”. Questionado sobre quanto tempo durará a ingerência dos EUA no país, Trump respondeu que “só o tempo dirá”.

O presidente americano afirmou ainda que a reconstrução da Venezuela será “muito lucrativa”, baseada principalmente na exploração do petróleo. Segundo Trump, a estratégia inclui utilizar o petróleo venezuelano para reduzir os preços internacionais e, ao mesmo tempo, gerar recursos para o país, que, segundo ele, “precisa desesperadamente de dinheiro”.

As três fases do plano dos EUA para a Venezuela

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, detalhou no Congresso americano a estratégia oficial do governo Trump para consolidar a mudança de regime na Venezuela. O plano está dividido em três fases: estabilização, recuperação e transição.

Rubio apresentou o plano quatro dias após a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e a transferência do casal para Nova York, onde respondem a acusações perante a Justiça americana. Segundo o secretário, o objetivo central é evitar o colapso institucional do país durante o processo de mudança política.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, detalhou as etapas da estratégia do governo dos Estados Unidos para consolidar a mudança na Venezuela

Fase 1 – Estabilização e controle do petróleo

A primeira etapa do plano prevê a estabilização da Venezuela por meio do controle direto de parte significativa de sua produção petrolífera. De acordo com Rubio, os Estados Unidos irão assumir entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, que serão vendidos no mercado internacional a preços globais.

As receitas obtidas, segundo o governo americano, serão administradas pelos EUA, que controlarão sua distribuição. A justificativa apresentada é impedir a corrupção e evitar que os recursos sejam desviados por antigos aliados do regime deposto. “Esse dinheiro será administrado para beneficiar o povo venezuelano”, afirmou Rubio.

O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, declarou que Washington pretende manter supervisão contínua sobre a indústria petrolífera venezuelana, incluindo a venda futura da produção do país de forma indefinida. Autoridades americanas também confirmaram a apreensão de navios-tanque ligados ao petróleo venezuelano, alegando violação de sanções impostas pelos Estados Unidos.

Fase 2 – Recuperação e reintegração ao mercado global

A segunda fase, chamada de “recuperação”, está vinculada à reinserção da Venezuela no mercado internacional. Segundo Rubio, o governo americano pretende garantir que empresas dos Estados Unidos, de países ocidentais e de outras regiões tenham acesso ao mercado venezuelano de forma considerada “justa”.

Representantes de grandes companhias petrolíferas americanas devem se reunir com o governo Trump para discutir possíveis investimentos. Analistas, no entanto, avaliam que os efeitos práticos dessas medidas tendem a ser limitados no curto prazo, já que a recuperação da infraestrutura petrolífera exigiria anos de investimentos e estabilidade política.

Apesar de possuir as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo — estimadas em 303 bilhões de barris —, a Venezuela enfrenta queda contínua na produção desde o início dos anos 2000.

Delcy Rodríguez é a presidente interina da Venezuela

Fase 3 – Transição política sem previsão de eleições

A terceira etapa do plano americano é a transição política definitiva. O governo Trump, porém, não apresentou um cronograma detalhado e tem evitado mencionar a realização de eleições no curto prazo.

Trump afirmou que “não dá para haver uma eleição agora” e disse que os Estados Unidos precisarão “cuidar do país” até que a Venezuela “volte à saúde”. Washington decidiu apoiar Delcy Rodríguez como presidente interina, descartando um governo liderado pela opositora María Corina Machado.

O governo americano também não reconheceu oficialmente os resultados das eleições de 2024, nas quais uma apuração paralela da oposição indicou vitória do candidato Edmundo González Urrutia. Trump declarou que Rodríguez “pagará um preço muito alto” caso não coopere com as exigências dos Estados Unidos.

Clima de medo e tensão em Caracas

Enquanto o plano avança no campo diplomático, a população venezuelana vive um cenário de medo e instabilidade. A professora Zuleika Matamoros, que mora no Recife desde 2022, retornou recentemente a Caracas para resolver pendências familiares e documentais e acabou surpreendida pelos bombardeios e pela deposição de Nicolás Maduro.

Moradora do bairro 23 de Enero, um dos mais simbólicos da capital venezuelana, Zuleika relata forte presença militar e de grupos armados. “Está tudo muito militarizado. Tem milícias com metralhadora em todo canto. A sensação é de que tudo pode ser bombardeado de novo”, afirma.

Segundo ela, o clima é de incerteza e abandono, e muitas pessoas pensam em deixar o país. Zuleika diz que sairia da Venezuela na primeira oportunidade, temendo novos ataques e um agravamento da crise humanitária.

Zuleika Matamoros é venezuelana e mora no Recife desde 2022

Críticas ao governo e à oposição

Zuleika afirma que sempre apoiou a Revolução Bolivariana iniciada em 1999, mas diz não se sentir representada pelo governo de Nicolás Maduro. Segundo ela, o ex-presidente adotou práticas autoritárias, enfraqueceu partidos e transferiu os custos da crise para os trabalhadores.

Apesar das críticas ao chavismo, ela também diz não se identificar com a atual oposição venezuelana, que, segundo avalia, defende privatizações amplas e ingerência estrangeira. Para a professora, a saída da crise deveria passar por um processo democrático conduzido pelos próprios venezuelanos.

Bombardeios dos EUA na Venezuela

Repercussão internacional e postura dos EUA

Paralelamente às ações na Venezuela, o governo Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos de dezenas de organismos internacionais, incluindo agências da ONU ligadas a direitos humanos, clima e questões sociais. A Casa Branca justificou a decisão afirmando que essas entidades não estariam alinhadas aos interesses nacionais americanos.

Analistas avaliam que as medidas reforçam uma política externa mais unilateral e condicionada aos termos de Washington, marcando uma mudança significativa na relação dos EUA com organismos multilaterais.

O avanço do plano americano para a Venezuela segue gerando forte repercussão internacional e aprofundando as incertezas sobre o futuro político, econômico e social do país.

FONTE G1