
Na aldeia de As Neves, na região espanhola da Galícia, uma tradição de mais de 300 anos chama a atenção: a procissão de Santa Marta de Ribarteme. Nela, devotos que escaparam da morte são levados em caixões como forma de agradecer à santa pela vida.
“Quando você entra no caixão, a primeira coisa em que pensa é que poderia realmente estar morto. Eu, três meses antes, poderia ter estado ali.” O relato é de Jorge Cotiño, morador da aldeia, que sobreviveu ao alcoolismo em estado avançado e prometeu participar da procissão caso saísse do hospital com vida. “Meu fígado estava exausto e eu pesava 32 kg, mesmo com 1,83 m de altura”, contou à BBC News Mundo. Desde que cumpriu a promessa, há dois anos, afirma não ter voltado a beber e hoje ajuda a organizar a romaria.
Com menos de 4 mil habitantes, As Neves mantém viva a devoção a Santa Marta, considerada intercessora nos momentos críticos da vida. A tradição, que tem registros escritos desde 1700, só foi interrompida durante a pandemia de covid-19.
Fé e festa
A celebração ocorre sempre em 29 de julho, dia de Santa Marta. Pela manhã, uma missa é realizada na paróquia de São José de Ribarteme ou em uma tenda ao lado, para receber o grande público. Ali ficam expostos os caixões, forrados de cetim, que podem ser alugados pelos devotos ou trazidos pelos próprios participantes.


Os “ofertados” são levados nos ombros por familiares, amigos ou vizinhos. Alguns optam por participar com o caixão fechado, outros seguem de joelhos, apoiados em bengalas ou com a ajuda de parentes. A procissão dura cerca de duas horas e é acompanhada por música, silêncio respeitoso e preces entoadas por grupos de “romeiros cantores”, que preservam um estilo tradicional do folclore galego.
Além do aspecto religioso, o evento também tem caráter festivo. Todos os anos, cerca de 5 mil pessoas participam, vindas da Galícia, de outras regiões da Espanha e até do exterior. A festa inclui partidas de futebol, churrascadas, atrações para crianças e a degustação do tradicional “polvo à feira” com batatas e pimentão.
Oferendas e devoção
Antigamente, os devotos penduravam notas e moedas na imagem da santa, que chegou a carregar até 2 milhões de pesetas em oferendas. Hoje, as doações são feitas em caixas ou por meio de objetos votivos, como bonecos de cera e até animais – leiloados posteriormente em benefício da igreja.
A imagem de Santa Marta segue à frente da procissão, carregada nos ombros, acompanhada pelos ofertados em caixões e pela multidão de fiéis. Para os moradores, trata-se de uma manifestação de fé profundamente identitária. Para os visitantes, uma experiência única e surpreendente.
“Não sei se foram os médicos ou a santa, mas desde que participei nunca mais bebi álcool”, resume Cotiño. Ele ainda recorda a sensação de cumprir sua promessa: “Quando você sai do caixão, fica impressionado. É algo irreal, muito difícil de explicar.”
FONTE G1