MEGAOPERAÇÃO EXPÕE ESQUEMA BILIONÁRIO DO PCC NO SETOR DE COMBUSTÍVEIS E AGRO

1 Nacional Policial
Polícia civil, Federal e Receita Federal se concentram para saída de megaoperação Carbono Oculto, com participação da Receita Federal

Uma megaoperação nacional, batizada de Carbono Oculto, foi deflagrada nesta quinta-feira para desarticular um dos maiores esquemas criminosos já identificados no setor de combustíveis no Brasil. A ação mobilizou cerca de 1.400 agentes do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Ministério Público Federal (MPF), Receita Federal, Polícia Federal, Polícias Civil e Militar, além da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e secretarias estaduais da Fazenda. Foram cumpridos mandados em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Segundo as investigações, o grupo ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) movimentava bilhões de reais por meio de fraudes fiscais, adulteração de combustíveis, lavagem de dinheiro e uso de empresas de fachada. O esquema teria causado um prejuízo de R$ 7,6 bilhões em tributos sonegados.

Carretas abandonadas e empresas de fachada

Nesta sexta-feira, um dia após a deflagração da operação, carretas carregadas de combustível das empresas G8LOG Agro Ltda e Moska Log foram abandonadas em um posto em Camaçari, na Bahia. A Polícia Militar foi acionada para remover os veículos.

As duas companhias foram identificadas como de fachada e ligadas a Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, apontados como líderes do esquema e atualmente foragidos. Criada em fevereiro de 2024, a G8LOG atuava no transporte de cana e etanol para usinas do Grupo Itajobi, mas servia para mascarar a real propriedade dos bens. A Moska Log operava de forma integrada, utilizando a mesma frota, telefone e logomarca, reforçando a blindagem patrimonial da rede criminosa.

Estrutura do esquema

Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, eram responsáveis por comandar o esquema do PCC no setor de combustíveis.

O MP descreve Mourad como o “epicentro das operações”. Ele usava familiares, sócios e administradores cooptados para estruturar um império que abrangia toda a cadeia de combustíveis – usinas, distribuidoras, transportadoras, postos e até lojas de conveniência.

Entre as principais empresas estão a Copape, produtora de gasolina, e a Aster Petróleo, distribuidora com mais de mil postos em diferentes estados. Mourad comprou as duas em 2020 por R$ 52 milhões. Para fraudar impostos, o grupo usava a Terra Nova Trading, responsável pela importação de matéria-prima com tributação menor em Tocantins, desviada diretamente para a refinaria da Copape em Guarulhos.

O esquema também utilizava empresas financeiras. A Receita Federal identificou 40 fundos de investimentos controlados pelo PCC, com patrimônio de R$ 30 bilhões, além de fintechs como o BK Bank, que movimentava recursos em “contas bolsão” não rastreáveis. Esses fundos financiaram a compra de usinas, fazendas, 1.600 caminhões, imóveis de luxo e até um terminal portuário.

Adulteração com metanol

Refinaria da empresa Copape em Guarulhos, na Grande São Paulo.

Um dos pilares da fraude era a importação irregular de metanol, altamente inflamável e tóxico, usado para adulterar gasolina e etanol. O produto chegava pelo Porto de Paranaguá (PR) e era desviado com notas fiscais falsas. A ANP permite no máximo 0,5% de metanol nos combustíveis, mas análises encontraram índices de até 90% em postos abastecidos pelo grupo.

Segundo estimativas do setor, cerca de 30% dos postos em São Paulo – aproximadamente 2.500 estabelecimentos – chegaram a vender combustíveis adulterados ou em volume inferior ao registrado pelas bombas. Fraudes semelhantes foram identificadas em mais de 300 postos em dez estados.

Violência e coação

As investigações revelam que o grupo também coagia fazendeiros, donos de usinas e empresários de postos a venderem propriedades a preços subfaturados, sob ameaça de morte. Há suspeitas de incêndios criminosos em canaviais e propriedades como forma de intimidação. Parte dos recursos ilícitos foi utilizada para adquirir usinas sucroalcooleiras em dificuldades financeiras, expandindo a atuação criminosa no agronegócio.

Histórico e recuperação judicial

Esta não foi a primeira vez que Mourad entrou na mira do MP. Em 2018, ele já respondia por falsidade ideológica e fraude em bombas de combustível. Em 2023, o Fantástico revelou que controlava mais de 50 postos em nome de laranjas e praticava adulterações sistemáticas.

No mesmo ano, a Copape e a Aster Petróleo entraram com pedido de recuperação judicial, alegando dívidas de R$ 830 milhões, após a ANP cassar suas licenças de operação por irregularidades e sonegação de ICMS superior a R$ 1,3 bilhão.

Operação do MP-SP com Receita e Polícia Federal

Dimensão do caso

Ao todo, mais de 350 pessoas físicas e jurídicas são investigadas por crimes como fraude fiscal, estelionato, adulteração de combustíveis, crimes ambientais e lavagem de dinheiro.

De acordo com o MP-SP, a facção buscava inserir suas atividades ilícitas na economia formal, valendo-se de empresas de fachada, fundos de investimento e instituições financeiras paralelas para movimentar bilhões de reais.

A Justiça já decretou a indisponibilidade de bens de Mourad e seus sócios, e a força-tarefa seguirá com bloqueios para tentar recuperar os valores sonegados.

FONTE G1