Sobrevivente de tragédia em Taguaí diz que trocou de lugar no ônibus no dia do acidente: ‘Eu sobrevivi, mas minha amiga não’

0
170
Tragédia em Taguaí - 1 ano do acidente que deixou 42 mortos no interior de São Paulo — Foto - Arte g1

Cláudia também contou que adotou o cachorro de outra amiga que morreu e que a cunhada quase deu à luz na fábrica durante discussão sobre o ônibus. Um ano depois, série do g1 mostra como está a investigação das causas da batida que deixou 42 mortos no interior de SP.

Por Rafaela Zem e Júlia Nunes, g1 Itapetininga e Região

25/11/2021 06h25  Atualizado há 2 horas


Os ferimentos causados pelos estilhaços de vidro na sobrevivente Cláudia dos Santos, durante o acidente que matou 42 pessoas em Taguaí (SP), já cicatrizaram. No entanto, a saudade e o sentimento de revolta ainda estão presentes no cotidiano da costureira, que perdeu a cunhada, o concunhado e as duas melhores amigas na tragédia.

batida entre o caminhão e o ônibus, que transportava funcionários de empresas de confecção, ocorreu há exatos 365 dias na Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho. Segundo a Polícia Rodoviária, o acidente foi o maior em número de mortes nas rodovias do estado de São Paulo em 22 anos.

A tragédia é tema de uma série de reportagens do g1. Os textos serão publicados todos os dias até esta quinta-feira (25), quando o acidente completa um ano.

Sobrevivente Claudia dos Santos perdeu a cunhada, o concunhado e as duas melhores amigas em tragédia de Taguaí — Foto: Jamie Rafael/ Tv Tem

Sobrevivente Claudia dos Santos perdeu a cunhada, o concunhado e as duas melhores amigas em tragédia de Taguaí — Foto: Jamie Rafael/ Tv Tem

Ao g1, a sobrevivente contou que, no dia da batida, estava sentada no primeiro banco do ônibus e sofreu cortes na barriga, na cabeça e nos braços. O lugar no veículo era diferente de onde ela estava acostumada a viajar, ao lado da amiga Leda Aparecida Estevam.

“Primeiro, eu sentei ao lado da minha amiga Leda e logo vi que havia um banco vazio na frente. Eu perguntei se ela queria sentar ali, mas ela disse ‘não, pode ir você’. Então, eu fui. Sempre evito pensar nisso porque eu sobrevivi e a minha amiga não”, lembra Cláudia.

Com o impacto da colisão, a costureira disse que foi arremessada do veículo. Segundo ela, o motorista do ônibus tentou uma ultrapassagem proibida. À polícia, ele alegou que houve problema no freio e invadiu a outra pista para não bater na traseira de outro veículo.

De acordo com a sobrevivente, a imprudência do motorista e a má condição do transporte eram problemas recorrentes e a administração da empresa já havia sido informada sobre os riscos.

Rosana Oliveira e Níveo dos Santos morreram em acidente de Taguaí  — Foto: Claudia dos Santos/ Arquivo Pessoal

Rosana Oliveira e Níveo dos Santos morreram em acidente de Taguaí — Foto: Claudia dos Santos/ Arquivo Pessoal

Cláudia contou que, três anos antes do acidente, a cunhada dela quase deu à luz na fábrica durante uma discussão sobre o ônibus. Rosana Rodrigues de Oliveira e o marido Niveo dos Santos Venâncio, concunhado de Cláudia, morreram na batida.

Segundo a costureira, o casal deixou boas lembranças e dois filhos, um de 4 anos, que nasceu no dia em que o ônibus estragou, e outro de 13 anos.

Em nota ao g1, os advogados das três empresas de confecção envolvidas, Prime Jeans, Creative Jeans e Virtual Jeans, afirmaram que o transporte não foi contratado por elas que, desde 2017, deixaram de fornecer transporte aos funcionários.

Segundo a defesa, as empresas pagavam vale-transporte em holerite para os trabalhadores e, “apenas por questão de facilitação do pagamento, havia o repasse do valor pago pelos funcionários a empresa de transporte, por meio de desconto em folha de pagamento”.

Disse ainda que “não houve reclamação dos funcionários diretamente às empresas, ou mesmo de modo formalizado” sobre as condições do ônibus.

Uma lembrança

Apesar do trauma e das sequelas causadas pelo acidente, como a dor constante na coluna, Cláudia contou que tenta superar a tragédia se lembrando dos momentos que passou ao lado de seus colegas de trabalho.

Entre as pessoas mais próximas, a costureira destacou a amizade que tinha com Vanessa Caroline Vieira dos Santos, uma das 42 pessoas que morreram no acidente. O carinho pela colega de trabalho era tão grande que, após a tragédia, Cláudia adotou o animal de estimação da amiga.

“A Vanessa sempre quis um cachorrinho e, quando finalmente teve, aconteceu essa fatalidade. O Steve era muito apegado a ela e não se acostumou com ninguém. Então, eu e meu marido decidimos ficar com ele. Ele é ‘bravinho’, mas adora um carinho”, conta a sobrevivente.

 Claudia adotou animal de estimação de amiga morta em Tragédia de Taguaí  — Foto: Rafaela Zem/ g1

Claudia adotou animal de estimação de amiga morta em Tragédia de Taguaí — Foto: Rafaela Zem/ g1

Acidente

A batida entre o ônibus e o caminhão aconteceu às 6h35 no quilômetro 172 da Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho. Com o impacto, o caminhão bitrem, que levava uma carga de esterco, invadiu uma propriedade rural, e várias vítimas foram arremessadas do ônibus e ficaram amontoadas na pista.

Ao todo, 37 mortes foram confirmadas no local do acidente e os feridos foram encaminhados para três hospitais em Taguaí, Fartura e Taquarituba (SP). De 15 sobreviventes socorridos após a batida, quatro morreram antes de dar entrada nos serviços de saúde. A 42ª vítima morreu no dia 29 de novembro, em um hospital de Avaré.

Acidente em Taguaí (SP) — Foto: William Silva/TV TEM

O ônibus transportava, além do motorista, que sobreviveu, 52 funcionários de uma empresa têxtil que fica em Taguaí. O veículo pegou passageiros em Itaí, Taquarituba e seguia para Taguaí quando bateu, a cerca de cinco quilômetros do destino final.

Já no caminhão havia dois motoristas, e o homem que dirigia o veículo morreu na batida. Ele não tinha habilitação para dirigir caminhões e, por isso, havia contratado um ajudante, que sobreviveu ao acidente.

Veja quem são as vítimas da tragédia no interior de SP — Foto: Arte-G1

Depois da batida, o Governo de São Paulo montou uma força-tarefa para identificar e liberar os corpos das vítimas, que foram levados para o Instituto Médico Legal (IML) de Avaré.

A força-tarefa das polícias Técnico-Científica e Civil identificou e liberou os corpos dos primeiros 41 mortos na madrugada do dia 26 de novembro e um caminhão frigorífico precisou ser usado para armazenar os corpos à espera do exame necroscópico.

Os corpos começaram a ser velados na noite do dia 25 de novembro, no ginásio de esportes de Itaí, de oito em oito por vez. Já os enterros tiveram início na madrugada do dia 26 de novembro e aconteceram durante toda a manhã.

Responsabilidades

O passageiro do bitrem que sobreviveu ao acidente afirmou que o ônibus tentou ultrapassar outro caminhão e invadiu a contramão em um trecho de faixa contínua. Conforme o relato de um sobrevivente, a maioria dos passageiros estava sem cinto de segurança e dormia na hora da batida.

Já o motorista do ônibus disse, para a polícia e entrevistas, que não tentou ultrapassar outro veículo no trecho onde era proibido e que houve uma falha no freio do ônibus. O homem alegou que, por isso, teve que jogar o ônibus para o lado para não colidir com o veículo que estava à frente.

Perícia em 3D de acidente que matou 42 pessoas em Taguaí — Foto: Reprodução

Perícia em 3D de acidente que matou 42 pessoas em Taguaí — Foto: Reprodução

No dia 30 de novembro, o acidente foi recriado pela perícia através de um equipamento de tecnologia 3D. A equipe foi ao local da batida com um laser escâner, que digitalizou a área.

Em fevereiro de 2021, o motorista do ônibus foi indiciado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A Polícia Civil chegou a essa conclusão depois de receber um laudo, que aponta que não houve falha nos freios.

A polícia também indiciou a dona da empresa de ônibus Star Turismo por causa das más condições do veículo e exercício irregular da profissão, já que a empresa não tem licença para o transporte de passageiros.

Ônibus destruído após acidente em Taguaí, SP — Foto: AP Photo/Juliano Oliveira

Ônibus destruído após acidente em Taguaí, SP — Foto: AP Photo/Juliano Oliveira

Os donos das três fábricas onde os passageiros trabalhavam, e para onde seguiam quando houve o acidente, também foram indiciados porque eram responsáveis pela contratação do ônibus.

Apesar dos indiciamentos, o inquérito relatado à Justiça em fevereiro voltou ao distrito policial a pedido do Ministério Público, e a Promotoria aguarda a conclusão das diligências para oferecer as medidas judiciais pertinentes.

Além do inquérito da Polícia Civil, o Ministério Público do Trabalho (MPT) abriu uma investigação contra as empresas envolvidas no acidente. Quase um ano depois da batida, o órgão fechou um acordo com as três empresas envolvidas, que se comprometeram a indenizar em R$ 39 mil as famílias de 40 trabalhadores.

Apesar disso, o termo ainda garante que os familiares entrem com reclamação trabalhista para discutir judicialmente a possibilidade de valores maiores para reparação. O g1 não teve conhecimento de nenhuma família que aceitou o acordo.

CRÉDITOS

  • Reportagem: Júlia Nunes e Rafaela Zem
  • Edição de texto: Paola Patriarca
  • Produção: Júlia Nunes, Rafaela Zem, Douglas Belan, Francine Galdino e Mayla Rodrigues.
Continua depois da Publicidade